Muitas
vezes já vi em quermesses,
"venda de beijos" dados,
ou melhor, leiloados por alguma artista famosa,
mulher bonita, ou elegantes damas da sociedade,
em benefício de campanhas
consideradas socialmente nobres.
Pois aqui, em nossa casa, em vez de vendermos,
colhemos beijos, múltiplos e sortidos.
São beijos comuns, mas muito queridos.
Eles adornam o canteiro do pé do chorão,
que parece gostar muito das suas companhias:
quando o vento sopra, o chorão, alegre,
parece dar beijo nos beijos,
com suas folhas amorosas e leves.
Pode ser impressão minha,
mas sempre depois dessas cenas de amor em público,
noto que algumas flores ficam ainda muito mais coradas.
Semana passada, porém,
notei que nossos beijos estavam morrendo.
Pensei: como é constrangedor um canteiro de beijos tristes,
acanhados, desgastados, beijos que
nem molhados pela chuva florescem mais.
Cheguei perto para conversar com eles
(não dizem que as plantas entendem a fala das pessoas?)
e lhes fazer um carinho, mas não cheguei a tocá-los.
É que nestes beijos, em vez de sapinhos, havia uma perereca.
Pulou incomodada, e eu recuei. Ainda assustado, perguntei-lhe:
"Isto lá é lugar pra você se esconder?"
Ela deu outro salto e abocanhou um inseto,
que incauto, pousara nas folhas do beijo murcho.
Então, de repente, entendi seu tipo de resposta para mim:
ao pular, ela esbarrava nas bagas que se abriam,
espalhando sementes - beijos a granel - por todos os lados.
Natureza sábia, mesmo quando suas leis de preservação
nos parecem estranhas.
Graças à nossa predadora verde, em breve
nosso beijinhos renascerão, novinhos em folha,
e borboletas esvoaçantes voltarão atraídas
por estas maravilhosas pétalas beijoqueiras.
Mas nem tudo são flores, amiguinhas lepidópteras.
Lembrem-se de que há também batráquios à espreita.